De olho no consumo de água

Empresa desenvolve soluções tecnológicas que ajudam a evitar o desperdício

Cerca de 40% da água produzida no Brasil é perdida antes mesmo de chegar à casa dos consumidores. Ou seja, a cada 100 litros produzidos, 37 nem alcançam seu destino final. Em tempos de longos períodos de estiagem e racionamento hídrico, estes números são inadmissíveis e desafiam, cada vez mais, a busca por soluções tecnológicas que ajudem a evitar desperdícios.

A CAS Tecnologia é uma das empresas que tem apostado neste nicho. Há 11 anos, quando o assunto crise hídrica ainda não havia adentrado as residências paulistanas, a marca lançou no mercado um sistema de medição individualizada de água para condomínios. No ano passado, a procura pela tecnologia aumentou 40%. Atualmente, cerca de 35 mil pontos já possuem a ferramenta.

Gerente de négocios Marco Aurélio Teixeira destacou que, nos últimos anos, as pessoas passaram a dar mais importância para a água e se sensibilizar de que precisam contribuir com a preservação dos recursos hídricos. “Nós temos uma cultura de pensar que a água é um bem infinito e barato. Com a crise, as pessoas sentiram o que é ficar sem água e que precisam contribuir com a preservação”.

Teixeira destaca que o sistema de individualização torna este envolvimento possível, principalmente em condomínios onde o consumo de água é medido globalmente. Pela tecnologia, a medição e cobrança passa a ser feita individualmente para cada morador. “Antes, todos pagavam o mesmo valor e não tinham informação de quanto gastavam e quanto poderiam economizar, bem como se os esforços que estavam fazendo para reduzir o consumo estava surtindo efeitos, já que a conta era igual para todos”.

Além de dar este feedback ao morador, a ferramenta ainda disponibiliza uma série de informações que auxiliam na identificação de possíveis vazamentos e quais são os vilões no gasto de água.

“A pessoa pode conferir qual horário teve maior consumo e, logo, onde esta água foi gasta. Assim como identifica se em horários que não ninguém na casa ou quando todos estão dormindo, por exemplo, está tendo consumo, o que identifica possíveis vazamentos”.

Em alguns casos, segundo o gerente, consumidores conseguiram reduzir a conta no final do mês em até 50%. “Percebemos que a informação faz toda a diferença no perfil de consumo de água de cada indivíduo. Quando a conta é individualizada e o usuário é informado sobre seu consumo e o quanto terá que pagar por isso, se assusta e passa a consumir de uma forma mais consciente”.

Diante dos resultados, o sistema também passou a ser adotado pelo mercado corporativo e ser obrigatório em novos condomínios construídos na capital paulista. Outra novidade que vai aprimorar ainda mais o controle do consumo é o lançamento, até o final do ano, de um aplicativo para celular que permitirá ao consumidor acompanhar em tempo real o gasto de água, bem como receber mensagens de alerta em casos de aumento na vazão de água.

“Trata-se de um sistema que ajudará a disciplinar o cliente e permitirá que ele tenha maior controle de consumo de água de uma forma acessível, eficiente e simples”.

Buscar soluções tecnológicas que ajudem a construir uma nova consciência em relação a água também é o objetivo do Programa Benchmarking Brasil, que lançou neste ano a primeira edição do prêmio “Hackathon Mais da Sustentabilidade”. Ao todo participaram 10 projetos de aplicativos desenvolvidos por jovens designers e programadores, tendo como foco no suporte ao uso racional de água.

Idealizadora do programa, Marilena Lavorato, afirmou que, por meio deste trabalho, jovens ainda em formação são estimulados a desenvolver, por meio de ideias inovadoras e aplicáveis, práticas de sustentabilidade que possam ser replicadas. “É um meio de incentivar estes jovens para que, com sua expertise, busquem soluções sustentáveis e, assim, possamos divulgar o que dá certo ou o que tem tudo para dar certo”.

Para o desenvolvimento do programa, foram firmadas parcerias com duas universidades. Professores foram capacitados e, num período de 6 meses, desenvolveram os aplicativos com os estudantes. “As ferramentas foram apresentadas para grandes empresas, com objetivo de aproximar estes jovens do mercado, e dar um aporte para que estas tecnologias se tornem realidade”.

Nesta primeira edição, o aplicativo Level Up+, criado por Erico Luiz Frank, 19, e Rodrigo Silveira Dias de Lima, 30, alunos da Uninove, foi o vencedor pelo júri técnico. Pela ferramenta, os usuários podem postar fotos de vazamentos de água em vias públicas, pessoas lavando carros, calçadas, dentre outras. As imagens terão um geolocalizador de onde foi tirada ajudando os funcionários da rede de saneamento básico da cidade identificar e solucionar rapidamente o problema.

“Nossa ideia é trazer a responsabilidade social não apenas às empresas de saneamento básico, mas para o público em geral, para que atuem como vigilantes. Ele ajuda a passarmos pela grave crise hídrica, aliando rapidez e o alcance das mídias sociais”, explica Érico.

Já pelo voto popular, foi premiado o aplicativo Irriga-Ação, que auxilia no consumo inteligente de água para irrigação, uma das principais formas de desperdício do recurso no mundo. Segundo o acadêmico Fabrício Tenaglia, 23, da Anhembi Morumbi, o app calcula a quantidade de litros de água necessários para irrigar uma determinada área da propriedade, ajudando o produtor rural a usar o recurso de forma mais racional, evitando desperdícios, porém mantendo a produtividade.