Tecnologia Reduz Custo e Tarifas

Em Cataguases – município com 75 mil habitantes na Zona da Mata mineira o Grupo Energisa criou um centro de operações digitais. Nele, pesquisadores estudam informações coletadas pela cidade, testam modelos e desenham soluções. Os objetivos são “extrapolar” o tradicional negócio de energia e posicionar a empresa no ambiente das cidades inteligentes.
“Nos interessamos pelos dados municipais, sejam eles indicadores do consumo de eletricidade ou da coleta de lixo”, diz o coordenador de novas tecnologias Thiago Enei. Para ele, o futuro exige capacidade de oferecer mais do que energia. “Vai vingar quem entender as demandas da sociedade”, completa.

A tarefa não é simples. Quando se trata de consumo de energia, as demandas da sociedade estão deslocadas do modelo de negócios do setor, lembra Luis Carlos Tsutomu, especialista da consultoria Deloitte. “Ao mesmo tempo em que aumenta o uso, o cliente quer redução nas tarifas.” A equação se torna mais complicada diante da pressão tecnológica. O avanço da digitalização cria, nos consumidores, expectativas por aplicativos capazes de indicar os vilões da conta; distribuidoras são cobradas para investir em redes modernas e inteligentes; e geradoras devem aplicar recursos em fontes de energia limpa e renovável. Enquanto isso, equipamentos para geração distribuída de energia tornam-se economicamente viáveis e fabricantes de bens de consumo – de chuveiros a carros elétricos – desenham produtos que gastam pouco. Cada uma dessas forças estica a corda de quem entrega energia. “É um ambiente complexo para planejar e investir”, admite Tsutomu.

De acordo com o trabalho publicado pela base brasileira da Iniciativa Internacional de Energia (IEI, na sigla em inglês), custos crescentes na operação, com impacto na tarifa de energia, despertaram a atenção do consumidor para o uso eficiente da eletricidade e pela geração própria. O interesse por projetos de energia solar e eólica cresce azeitado pelos incentivos governamentais para investimentos em fontes renováveis. Como resultado, a micro e minigeração distribuída ganham espaço. “No mercado internacional, os preços dos equipamentos para geração solar despencaram 70%, por conta de uma disputa pela melhor tecnologia”, revela Tsutomu.

Centro de Operação ENERGISA-MGNascida em Cataguases há 113 anos, a Energisa tem parcerias de inovação com universidades, fornecedores de equipamentos, centros de pesquisa e enertechs, as startups do setor. Busca por soluções capazes de promover eficiência energética e melhorar a experiência do consumidor. Além de, é claro, ajudar a desvendar o enorme conjunto de dados capturados pelas redes de energia, que pode levar o grupo a outro patamar na prestação de serviços. “Priorizamos iniciativas capazes de ampliar a rentabilidade. Por isso, vamos investir em cidades inteligentes, indo além do conceito da rede inteligente”, comenta Enei.

No centro de controle, a internet das coisas (IoT) facilita a captação das informações utilizadas para criar e testar modelos. Também ajuda na autom ação dos processos. “Replicamos o que dá certo e, se a inovação não gerar resultado, é descartada”, diz Savio Ricardo, gerente de automação e telecomunicações. Para ele, a grande mudança nos últimos anos é que o consumidor começou a ter escolhas. Pode, até mesmo, produzir energia. “O problema está em controlar o que entra e o que sai da rede. Ainda há desafios técnicos para a geração distribuída”, admite.

O que de fato tem funcionado, completa Manoel Messias, gerente de proteção à receita da Energisa, é o uso de telemetria – leitores de energia conectados à central pela internet, que permitem a captura de informações e manutenção remota. Os equipamentos estão instalados em grandes consumidores (para monitorar o consumo e aprimorar a gestão do relacionamento) e em regiões nas quais as perdas de energia são evidentes. Neste caso, o objetivo é prevenir “gatos” e reduzir a inadimplência. A telemetria permite, por exemplo, o corte remoto da eletricidade. “Nestes dois extremos, a conta fecha”, explica.

O raciocínio é simples: esses medidores ainda são caros e não é possível instalá-los em todos os pontos da rede. “É um custo que não podem os repassar para a tarifa”, diz Messias. Segundo ele, a união entre telem etria e análise de dados tem evitado perdas de 63 GWh, som ando todas as regiões atendidas pela Energisa. É energia suficiente para alim entar 40 mil residências por um ano.

Welson Jacometti, CEO da CAS Tecnologia, define a digitalização das redes de distribuição como a única opção. “E o caminho natural para ganho de eficiência e criação de novos negócios”, ressalta. “Quando a informação demora para chegar até a central de controle, a empresa perde dinheiro. A internet das coisas permite automatizar processos e capturar dados para monitoramento e ações concretas”, completa.
Como exemplo, Jacometti cita um projeto-piloto que a CAS tocou no Estado de São Paulo, durante 36 meses.

Os resultados mostraram que perdas associadas a defeitos na rede são duas vezes superiores às registradas com furto de energia. “As redes brasileiras são heterogêneas.
Há conexões novas e velhas. No meio do caminho, se perde muito”, diz o executivo.

Para Hilton Menezes, CEO da consultoria Kyvo, o mercado de energia vai buscar nas enertechs (startups) o respiro necessário para suas idéias. “O modelo de negócios está em xeque e é preciso dominar as redes para lucrar”, diz. Ele cita a necessidade de gerenciar energia vinda de diferentes fontes. Em vez de entregar insumo de forma unilateral, as empresas precisam saber qual é a energia mais rentável para colocar no sistema em tempo real. “No final do dia, quem vende eletricidade precisa fechar o caixa, remunerar os produtores e registrar lucro”, explica.

Luis Viola, diretor de tecnologia da Associação Brasileira de Internet das Coisas (Abinc) e CTO da Enablers, afirma que a infraestrutura de telecomunicações no Brasil está preparada para os projetos de redes inteligentes de energia. “Temos uma boa cobertura de serviço, provedores de computação em nuvem, análise de dados e inteligência artificial”, explica. Para ele, a nova geração de redes e de sensores também contribuirá para o avanço da digitalização no setor elétrico.

“Hoje, a bateria de um sensor dura até dez anos.

Fica viável instalar em larga escala para obter informações.” Outra facilidade está em acoplar sensores a equipam entos antigos, uma espécie de retrofit. “Medidores inteligentes são muito mais caros do que os analógicos. Em m uitos pontos, basta conectar um sensor”, afirma Viola.

Na ponta da produção, a efervescência tecnológica fica óbvia em um passeio pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo. Em um dos galpões, o físico Gilder Nader com anda testes para a área de energia eólica – fonte que cresceu 26,5% entre 2016 e 2017, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), e já responde por 8,6% da oferta de energia elétrica. Em um túnel de vento, o pesquisador m onta a estrutura para testar a topografia de terrenos propícios à construção de usinas eólicas. “A ideia é estim ar a geração de energia.” Para incrementar a eficiência na produção, Nader insere os dados em um modelo matemático para detalhar o desenho mais eficiente da usina. O software indica, inclusive, a melhor localização das torres na área. Entre as técnicas, ele utiliza maquetes de cidades para simular a perda de vento pelo atrito com os prédios. “Também testamos equipamentos para identificar as melhores pás em cada operação”, diz.

Entre as novidades, ele destaca a construção de pequenos aerogeradores para instalação em condomínios residenciais, comerciais e até em projetos de iluminação pública. “No Ceará, há postes com geradores que alimentam as lâmpadas”, exemplifica. Em São Paulo, seu time realiza testes em corredores de transporte. A ideia é descobrir se o vento causado pelo vaivém dos ônibus gera energia suficiente para viabilizar um a unidade de produção.
O engenheiro eletricista Mário Leite, pesquisador responsável pelo laboratório de equipamentos elétricos e ópticos do 1PT, lembra que as energias solar e eólica enfrentam ainda o desafio da entrega. “Nem sempre faz sol, nem sempre venta. É difícil determinar o quanto de energia vai ser entregue por dia”, observa. A resposta está no avanço tecnológico das baterias. Atualmente, as fabricadas com chumbo-ãcido (o mesmo material presente nas baterias dos automóveis convencionais) são as que apresentam viabilidade econômica. “As de lítio, mais compactas, prometem maior capacidade de armazenamento. O problema ainda é o custo”, completa.
Outra questão é a falta de dom ínio tecnológico para produzir baterias de lítio. Até agora, segundo o professor, o Brasil importa quase tudo da Ásia. O rumo desta história deve m udar em breve. No ano passado, o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) finalizou estudo que aponta a descoberta de novos depósitos de lítio.

De acordo com os dados, o país possui 8% das reservas globais do mineral. “É um percentual importante e vai exigir esforços científicos para tirar do lítio a eficiência de que precisamos”, defende Leite.
Ficar perto dos grandes consumidores é a estratégia do Grupo Cemig, que, em 2002, criou uma empresa de soluções energéticas, a Efficientia, para tocar projetos ligados à eficiência e cogeração de energia. De acordo com o gerente de engenharia e comercialização Ricardo Dimas, é possível utilizar linhas de incentivo da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para trocar equipamentos velhos – e gastões – por modelos mais novos e econômicos. “Nós levantamos o parque instalado do cliente, m ontam os o projeto e dem onstram os os ganhos”, explica. Entre os itens mais pedidos estão planos para troca de ar-condicionado e iluminação.

Outra frente da empresa são os projetos de geração distribuída. “Já desenvolvemos nove”, contabiliza o gerente. Há pouco tempo, o padrão do mercado estava na cogeração – na qual o cliente utilizava energia e vendia apenas o excedente. Com a viabilidade econômica de produção eólica, solar e de biomassa em pequena escala, os consumidores estão se tom ando produtores de energia. “Muitas vezes, é mais vantajoso vender toda a energia para a rede e usar o crédito para abater a conta”, explica Dimas.

A Embratel – tradicional na área de telecomunicações – também está lucrando com a busca por economia e eficiência energética. “Apostamos na automação para reduzir as contas”, afirmajuarez Medeiros da Silva, diretor de soluções digitais. Segundo ele, a estratégia é ajudar o cliente a monitorar e prever os gastos. Utilizando recursos de internet das coisas e análise de dados, a Embratel conecta sensores e sistemas de automação nas empresas.
“Temos soluções que ligam e desligam equipamentos, verificam a iluminação e a temperatura do ambiente, entre outros processos de controle”, explica.

Ao ajustar detalhes como o número necessário de elevadores ligados durante a noite, os consumidores podem reduzir a conta em até 30%. “Em geral, os projetos se pagam em oito meses”, diz Silva. Além de evitar desperdícios, as informações geradas pela solução da Embratel facilitam a negociação com as distribuidoras de energia. “Há casos de indústrias que mudam horário do turno de produção para baratear a energia em determinada janela do dia”, exemplifica.