Smart Grid começa a alterar o perfil do setor elétrico

Thomas Alva Edson construiu em 1879, a primeira lâmpada elétrica comercialmente viável. Com a popularização da tecnologia, alastraram-se pelo mundo grandes redes de energia que passaram a alimentar não só filamentos luminosos, mas também uma infinidade de eletrônicos.

Talvez Edson se desapontasse ao descobrir que, mais de 80 anos depois da sua morte a maneira como é feita a distribuição elétrica de energia evoluiu muito pouco. Segundo especialistas, os sistemas atuais dependem excessivamente de fontes geradoras  únicas, com redes suscetíveis a falhas pontuais, porém críticas, e alto índice de furtos e prejuízos nas pontas.

A ascensão das tecnologias da informação e telecomunicações (TICs) permitiram novas soluções e tecnologias para que a indústria da energia finalmente pudesse promover uma mudança radical, acrescentando principalmente inteligência às redes.

Elas agora evoluem rumo à automatização, com a utilização de dispositivos medidores conectados a redes P para o monitoramento a distância do consumo e dos ativos das concessionárias e geradoras. E essa é a ponta do iceberg.

Segundo um levantamento feito pela CAS Tecnologia, as redes inteligentes, ou smart grids, permitem reduções de consumo de eletricidade na casa de 20%. O Brasil, que dentro de uma década será o terceiro maior mercado de smart grids do mundo (com R$ 36 bilhões), perde 14,7% da energia produzida antes de chegar aos consumidores, incluindo empresas e consumidores finais. O prejuízo ultrapassa R$ 81 bilhões anualmente.

 

Debates

Para propiciar aos profissionais e autoridades do setor um espaço para debate sobre as novidades tecnológicas e aspectos regulatórios da implementação de redes inteligentes na América Latina, é realizado desde 2008 o Fórum Latino Americano de Smart Grid.

Em sua quinta edição, que aconteceu no fim de novembro na capital paulista, foram debatidos principalmente os impactos da transformação tecnológica sobre os negócios das empresas envolvidas no setor de energia.

“Estamos tendo muitas mudanças simultâneas de curto prazo”, disse o presidente do Fórum e CEO da ECOee, Cyro Vicente Boccuzzi. “Precisamos definir políticas estáveis para parcerias e para que o movimento de modernização aconteça. Outro desafio é educar os clientes para que entendam as novas tecnologias e como usá-las”.

Para Bocuzzi, na América Latina ainda existe espaço para aumentar o consumo de energia – que atualmente é de 150Kwh, enquanto nos EUA está acima de 1mil Kwh e na Europa em torno de 800 Kwh. Assim, a região se diferencia do resto do mundo, sendo foco o aumento do consumo e, por consequência, o desenvolvimento econômico e o acesso à renda.

“O foco dos governos na América Latina é expandir a oferta, na maioria das vezes com a construção de usinas convencionais e de grande porte. O Brasil tem grandes projetos, além de oportunidades para geração de pequena escala”, ponderou o executivo. “São necessárias políticas públicas de longo prazo para modernizar a infraestrutura”.

 

Evolução

Mesmo essa necessidade não impediu o rápido progresso e adoção de solução para redes inteligentes, em um setor cujos aportes em novas ideias costumam ser lentos e muito bem ponderados. Nos últimos cinco anos, vários países passaram a propor diretrizes sobre tecnologia para medidores inteligentes, precificação dinâmica e geração em pequena escala.

Bocuzzi criticou durante a atuação do governo federal e as medidas da redução de tarifa previstos pela MP 579, que trata da renovação dos contratos de concessão. Embora elas sirvam de base para programas de aceleração do crescimento do país, a forma como foi proposta pela Presidente Dilma Rousseff

“vai reduzir as receitas das empresas, que questionam o ritmo de expansão do sistema. O que então dizer da modernização que deve acompanhar o crescimento? Isso pode trazer impactos nos investimentos e na forma de conduzir os negócios do setor”, questionou.

Nesse ponto, as reclamações de concessionárias e produtoras de energia são muito parecidas com as do setor de telecomunicações: ao mesmo tempo em que as margens de lucro das companhias são reduzidas, cresce a demanda e a exigência de qualidade, com a cobrança mais enfática dos órgãos reguladores. Nesse sentido, as smart grids surgem como alternativa para tornar o negócio mais rentável do ponto de vista da eficiência operacional e no combate às perdas.

 

Exemplos Práticos

A CEMIG, um dos mais importantes grupos do segmento de energia do Brasil, apostam em um projeto piloto de smart grid que consiste na instalação de 8 mil medidores inteligentes em sete Lagoas (MG). Segundo Denys Cruz de Souza, superintendente de desenvolvimento e engenharia de distribuição da empresa, o potencial de fraudes na região é muito pequeno, mas a instalação se justifica pela necessidade de aumentar a eficiência operacional.

“Temos 500 mil km de rede de distribuição, 100 mil em áreas urbanas. Cada defeito que ocorre em uma rede deste tamanho exige uma longa viagem dos eletricistas para simplesmente operar uma chave e voltar”, explica Souza. “A tecnologia vai permitir a localização mais eficiente de falhas. Essa carência razoável em termos de automação, precisa ser abordada pelas smart grids.

Para o executivo, embora a execução de projetos piloto no Brasil siga um ritmo acelerado, pesquisa e desenvolvimento não são suficientes. Ele defendeu a criação de fontes de financiamento para projetos do tipo e discussões mais amplas com órgãos governamentais.

 

Parceria

Outro grande player do setor de energia que trabalha em um projeto piloto de Smart Grid é a CPFL. A empresa participa de um grupo de empresas do setor coordenado pela IBM, chamado de Global Intelligent Utility Network Coalition. As reuniões presenciais e as teleconferências trouxeram “muito conhecimento” segundo o diretor de engenharia da CPFL, Paulo Ricardo Bombassaro.

A partir destes encontros e de estudos feitos pela empresa foram definidos quatro projetos. Eles são desenvolvidos por uma equipe de 60 colaboradores dedicados em tempo integral, com ritmo de implantação acelerado.

O primeiro dos quatro projetos diz respeito à eficiência operacional da CPFL, a partir da localização de defeitos na rede com recuperação automática. Serão 5 mil reguladores automáticos instalados até o fim de 2013, segundo Bombassaro. Até o último dia 30 de outubro já eram mais de 3,6mil.

O outro projeto é o de telemedição: 25 mil clientes de alta e média tensão receberão smart meters. A localição em tempo real das equipes de campo, que deve entrar em operação a partir de julho de 2013, é o terceiro projeto.

O quarto e último é a instalação de uma rede de telecomunicações que suporte todos os projetos anteriores, baseada em mesh.

“Temos uma visão de futuro já esboçada, com vários equipamentos instalados e em operação. Os sistemas estão em andamento. O projeto vai transformar a operação da empresa e trará ganhos importantes”, afirmou Bombassaro.

 

Governo

Para contrapor as cobranças feitas por membros do setor de energia ao governo, participaram dos debates do Fórum um representante da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e outro do Ministério das Comunicações (MC). Da agência reguladora ouviu-se o compromisso quanto à formulação de programas de transformação tecnológica em energia inteligente, mas não exatamente pelas razões que as concessionárias esperavam ouvir.

“Os consumidores não estão satisfeitos com a qualidade do serviço, e a Aneel também não”, disse o assessor de superintendência de regulação dos serviços de distribuição da Agência, Hugo Lamin, “Claro que existem empresas com bons indicadores, mas de forma ampla o Brasil precisa se debruçar sobre qualidade.”

O secretário de telecomunicações do MC, Maximiliano Martinhão, foi mais conciliador: destacou que existe uma grande oportunidade de sinergia entre o setor de telecomunicações e o de energia. A ideia é aproveitar a implantação do Smart Grid para expandir o Programa Nacional de Banda Larga (PNBL), que visa democratizar o acesso a conexão de dados no País. A recíproca também é verdadeira.

“Redes inteligentes sem telecomunicações são inviáveis”, disse o secretário. “É necessário estabelecer canais de comunicação entre unidades consumidoras e a rede para que todas as potencialidades possam acontecer.”