Inovação orientada ao consumidor

 

A transformação na operação das redes elétricas no Brasil, nos últimos 30 anos, é considerável e impõe novos desafios e abre novas oportunidades de negócios para as empresas do setor. A quantidade de dados recolhida por meio da medição eletrônica – dos grandes consumidores ou dos consumidores residenciais – e que permitem traçar perfis de uso da energia, entre outros parâmetros, tornou-se, em paralelo, mercadoria preciosa, mas também desafiadora, abrindo oportunidades de negócio que ninguém seria capaz de imaginar em passado recente.
“O ‘calo’ hoje é processar dados. É muito difícil mensurar o volume de informações geradas. Pode até colapsar um sistema”, aponta o presidente da AES Brasil, Ítalo Freitas. A companhia passou a oferecer, entre outros produtos, um serviço de inteligência para segmentação de dados.

Presidente da AES Brasil, Ítalo Freitas W A agregação de inteligência às redes de distribuição, conhecida genericamente como smart grid, é um processo sem retorno e que, nos próximos anos, deve trazer transformações mais radicais, mudando tudo que a população conhece atualmente como prestação de serviços de energia elétrica.
É também por conta do perfil dos usuários – cada vez mais empoderados e exigentes – , que as empresas estão se movimentando para fidelizar uma clientela que, em breve, também vai poder escolher o seus provedor de energia.

Do ponto de vista da qualidade do fornecimento – calcanhar de Aquiles do lado da oferta – há, inclusive, um bom caminho a percorrer para que o Brasil consiga se equiparar a países de primeiro mundo. Enquanto o consumidor brasileiro fica, em média, 900 minutos sem energia por ano, o seu equivalente nos EUA, enfrenta apenas 200 minutos de falta.
“O consumidor é que vai impulsionar a modernidade. Ele quer atendimento personalizado. Não tem outra solução a não ser investir em tecnologias. Estamos atrasados”, alerta o vice-presidente de Operações Reguladas da CPFL Energia, Luís Henrique Ferreira Pinto.

Recursos energéticos distribuídos Para se ter uma ideia, dados da Aneel apontam que, nos últimos anos, R$ 1,6 bilhão foi investido em cerca de 300 projetos de P&D relacionados às tecnologias de redes inteligentes. Mas há novas frentes de inovação a serem exploradas e que exigirão desembolsos muito mais elevados.

A aceleração do avanço da geração distribuída – que já causa grave estresse entre distribuidoras e instaladores de sistemas fotovoltaicos -, somada à introdução de recursos de armazenamento nas redes, mais o ingresso, ainda que bem gradual, de veículos elétricos são os próximos capítulos de um processo muito desafiador.

Especialistas indicam que, depois do boom da mini e micro geração distribuída, será a vez da eletromobilidade passar a trazer impactos mais fortes. Primeiro em transporte de carga e de passageiros, para depois se multiplicar no modal individual. Empresas como a Ambev, e municípios, como Campinas(SP) estão começando a investir, respectivamente, em entregas “limpas” e coletivos mais silenciosos e confortáveis, ambos em busca de redução de consumo de óleo diesel e de uma pegada de carbono de menor impacto.

Aliás, ante a possibilidade de alterações mais drásticas nas regras que tratam de GD, a aquisição de plantas solares disparou. Há algo em torno de 300 conexões por dia, promovendo os clientes a prosumidores, já que também são capazes de produzir sua própria eletricidade, injetando excedentes na malha das distribuidoras. Previsão da EPE é de que até 2027 o Brasil conte com 12 GW instalados de geração distribuída, algo que ainda trará muita dor-de-cabeça aos planejadores da distribuição.

“Vai ter oscilação e sobretensão na rede secundária, implicando em mudança de configuração, o que vai exigir mais investimento”, avisa Ferreira Pinto, com base no resultado de um projeto de P&D da CPFL Energia – em parceria com a Unicamp e CPqD – que analisou os efeitos de um bairro inteiro de Campinas (SP) equipado com unidades de geração solar distribuída.
Regulação e remuneração A própria Aneel está no centro desse “furacão” de mudanças e procura resolver várias demandas ao mesmo tempo vindas de todas as pontas do mercado. O diretor Sandoval Feitosa entende que é uma corrida em que o regulador acaba sempre ficando um passo atrás. “Nós nunca vamos nos antecipar às tendências”, reconhece.
O segmento de distribuição se recente, a propósito, da falta de uma consolidação das regulações que tratam de temas ligados a redes inteligentes, conforme assinala o consultor Cyro Bocuzzi, que também é presidente do Fórum Latino-Americano de Smart Grid.

“Os investimentos regulares requeridos pelas empresas incluem não somente a atualização dos ativos convencionais, como equipamentos, componentes, materiais e respectivos serviços de instalação e ampliação de redes elétricas, mas crescentemente precisam incorporar, ano a ano, parcelas cada vez maiores de equipamentos devotados a automação e digitalização de sistemas elétricos, software, telecomunicação e sistemas de inteligência artificial, suportando todos os processos empresariais”, justifica o especialista, para quem toda a cadeia de fornecedores tem sido também impactada pela transformação da natureza dos investimentos necessários e pela falta de regularidade e maior previsibilidade e respaldo na regulamentação em vigor.
Umas das principais questões a resolver agora é justamente a conciliação entre modicidade tarifária e a demanda por mais recursos, para dar sequência ao trabalho de modernização que ainda vem por aí.

O segmento de distribuição arrecada R$ 243 bilhões anualmente e investe R$ 16 bilhões em expansão e modernização. Só que do total da fatura do consumidor, as concessionárias ficam hoje com 18% a 20% de uma fatia que, no passado, chegou a quase 40% e foi encolhendo na base do aperto regulatório associado ao avanço dos custos de transmissão, geração e, principalmente, dos encargos e tributos.

Lembrando ainda que grande parte do Brasil ainda convive com o padrão de atendimento e qualidade dos anos 1990 e há quem ainda sequer possua acesso a energia elétrica e aguarda ansiosamente as próximas etapas do Programa Luz Para Todos. O regulador precisa levar em conta esse trade-off, ou seja, ao dosar as tarifas para fazer frente a investimentos em inovação e modernidade, não pode querer fazer um alinhamento horizontal sem levar em conta assimetrias gritantes entre regiões do país mais e menos urbanizadas.

Pelo menos é o que pensa o ex-diretor da Aneel Eduardo Henrique Ellery Filho, consultor e sócio do escritório Abdo, Ellery & Associados. Ele é favorável que a Aneel atenda algumas das reivindicações básicas do segmento de distribuição. Entende que é necessário conceder um aumento de tarifa para as concessionárias que estão acreditando firme em aplicar inteligência às redes, para depois ir, gradualmente, capturando os ganhos obtidos para serem revertidos à modicidade tarifária.

“Regulação por incentivo é isso. Precisa ter algum sinalzinho para o investidor. Para poder dar tempo de fazer frente aos custos e todo mundo poder reagir”, explica o especialista, que recomenda a adoção dessa estratégia de acordo com cada mercado atendido pelas companhias de distribuição. “Vai ter que ser algo diferenciado”, adiciona.

Distribuidoras Resguardando-se as proporções, a privatização de distribuidoras que antes estavam sob a gestão Eletrobras abriu um verdadeiro mundo de possibilidades. As velhas companhias precisam de um urgente upgrade tecnológico para poderem, ao longo do tempo, voltar a ter viabilidade econômico-financeira, além de qualidade de fornecimento enquadrada nos padrões de exigência da Aneel. A boa notícia é que tanto a Energisa – que ficou com a Ceron (RO) e Eletroacre -, como a Equatorial – que arrematou a Ceal (AL) e a Cepisa (PI) – têm no mercado um histórico positivo de boa gestão obtido a partir de investimentos em ferramentas de racionalização e modernização de redes. Até mesmo a Oliveira Energia, que ainda não tem experiência comprovada no segmento de distribuição, mas já conta com assessores competentes na área, vai ter que desembolsar um bom dinheiro para deixar em ordem tanto a Amazonas Energia quanto a Boa Vista Energia (RR).

Entre as grandes, além da CPFL Energia, Enel, Light, Copel, Cemig e Elektro, empresas que há tempos vem aportando um bom dinheiro em modernização, eficiência e inovação, a EDP Brasil é uma das que, a exemplo do que realiza na Europa, acredita muito nessa tendência. Mas entende que é preciso ter alguma clareza maior nos planos para smartgrid, bem como algum recursos adicional autorizado pelo regulador, avalia o presidente da EDP Brasil, Miguel Setas. Ele ressalta que o grupo acaba de criar, juntamente com a consultoria Accenture, o Smart Energy Lab, Com base em Recife (PE), a proposta é desenvolver tecnologias e soluções para o setor de utilities.

“Isso nos permitirá acelerar o desenvolvimento das soluções que estão promovendo a transformação do setor”, explica Setas, que mantém ainda um forte programa de apoio a startups para dar impulso a pontos de interesse prioritário que possam fazer a EDP se diferenciar no mercado e que, do contrário, levariam muito mais tempo para avançar internamente.
Fornecedores Por parte dos fabricantes de equipamentos e desenvolvedores de softwares, o entusiasmo por esse filão de negócios não é menos movimentado. Sergio Jacobsen, vice-Presidente Sênior da Smart Infrastructure da Siemens tem um cálculo, ainda que preliminar, de quanto o consumidor de energia pode ser beneficiado com programa mais bem definido de modernização das redes de distribuição.

“No médio e longo prazo é possível chegar a uma redução de até 20% na tarifa de energia, mediante um incentivo”, calcula o executivo. Ele explica que, um estudo mais detalhado a ser realizado com a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), deve permitir chegar a um cálculo mais preciso. A mobilização já começou e os resultados devem estar prontos no começo de 2020, para serem levados ao governo.

Enquanto isso, segundo o executivo, a Siemens reorganizou seu portfólio de produtos em uma nova divisão chamada Smart Infraestructure, lançada globalmente em abril deste ano. Também acaba de inaugurar, em sua planta em Jundiaí (SP) o Mindsphere Application Center (MAC), um espaço dedicado à co-criação, pesquisa e desenvolvimento de soluções digitais. O Brasil é o quarto país onde a empresa atua a receber esse tipo de unidade, já em plena operação na Alemanha, China e Índia, mas à frente dos EUA e países nórdicos, próximos na lista.

O presidente da brasileira CAS Tecnologia, Welson Jacometti, está bastante otimista com as expectativas de negócios. Ele lembra que as vendas no segmento de redes inteligentes nunca tiveram parada total, mas entre 2013 e 2015, por conta da MP 579, houve um baque maior nas concessionárias, que ficaram sem caixa para tocar adiante investimentos maiores. A companhia é conhecida no mercado não só por sua experiência na integração de sistemas – fazendo “conversar” equipamentos de fabricantes diferentes -, mas também é especializada em telecomunicação aplicada a redes elétricas e, mais recentemente, em desenvolvimento de software para análise de dados.

Já o headde utilities da espanhola Indra, Rubens Del Monte, menciona o fato de as distribuidoras estarem avançando do grau de implantação de projetos piloto para realizarem investimentos mais ambiciosos e amplos. Essa nova fase traz boas perspectivas, reforçando a posição da companhia no Brasil, que já é o mercado mais importante para a matriz fora da Espanha. Segundo o executivo, a demanda por soluções de automação e telecontrole dominam os negócios no momento.

“Um do principais focos das distribuidoras atualmente está no chamado Advanced Distribution Management System (ADMS), software que proporciona uma integração de todo o complexo de operação, incluindo self healing, controle de fluxo de potência, tensão, frequência, desligamento e religamento automático, sistema de descarte de carga, entre outras funções”, destaca o vice presidente de Marketing e Vendas de Power Grids da ABB, Glauco Freitas.

A falta de planejamento estratégico e financeiro do mercado, bem como a legislação regulatória são pontos que podem ser aperfeiçoados para aumentar a velocidade dos negócios, entende também.
Telemedidor limitado Peça fundamental para tornar realidade os avanços em smartgrid, segundo define o diretor da Aneel Sandoval Feitosa, o medidor eletrônico ainda é um produto que não está com uma pronta disponibilidade como se previa originalmente. Sem esse recurso básico, que é a porta de entrada do consumidor para um universo de serviços e funcionalidades, não dá para considerar que as redes inteligentes possam deslanchar em sua plenitude.

Segundo fontes, a tarifa branca acabou não tendo uma adesão mais significativa porque não contou com divulgação adequada por parte das distribuidoras que, além do mais, estavam com dificuldade de adquirir os dispositivos no mercado. Além disso, houve receio de fazer um compra em massa, sem saber, com mais precisão, da disposição dos clientes para optar pela modalidade e permanecer nela, já que há cláusula de saída após período de experimentação.

Mas, ao que tudo indica, essa “barreira” temporária está prestes a ser resolvida. Havia algumas questões pendentes junto ao Inmetro, entidade federal responsável pela homologação dos equipamentos, e que já estão sendo solucionadas. Entre elas, existia um gargalo para a realização de ensaios com os modelos de medidor encaminhados pelos fabricantes. Agora o Inmetro está terceirizando essa atividade, mediante rígida fiscalização e concentrando foco na tarefa de certificação.

“Foi uma jornada de quatro anos, mas, estamos conseguindo a liberação dos nossos modelos”, informa Sergio Jacobsen, da Siemens.

Na opinião do consultor Cyro Bocuzzi, aliás, a Aneel poderia ser mais ousada e promover uma experiência efetiva quanto a questão de medição. Ele é favorável que a agência patrocine a instalação de medidores com múltiplas funcionalidade para ver quais, de fato, acabem consagradas pelo próprio interesse dos clientes das concessionárias. Os resultados permitiriam, acredita, desenvolver um programa de trocas mais assertivo.